Mostrando postagens com marcador Opinião. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Opinião. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Ciência e Política

Trecho da entrevista concedida pelo neurocientista Miguel Nicolélis, que apresenta os motivos de sua declaração pública de apoio à candidatura de Dilma - ah, e se você não faz idéia de quem seja ele você anda mal informada/o! Ele é apenas um dos mais respeitados neurocientistas do mundo. Só isso. Saiba mais sobre ele nos links aí embaixo.

(...) a soberania do Brasil também depende de investimentos estratégicos no mapeamento das riquezas que nós temos, do que pode ser feito para o povo brasileiro em termos de novos medicamentos, novas fontes alimentares, novas fontes de energia. Existem dezenas de sementes oleaginosas do semi-árido que são não-comestíveis, que são muito mais eficientes na produção de óleo do que a mamona, por exemplo, que poderiam ser usadas em projetos de parceria de cooperativa no interior da caatinga do Brasil, para se produzir óleo biocombustível para trator, caminhão, que aliviariam tremendamente os custos da produção alimentar, familiar, nessa região do Brasil.
Isso precisa ser explorado, precisa ser mapeado com investimentos em pesquisa básica, em estudos de genômica funcional dessas plantas, tentar entender porque elas conseguem produzir esses óleos de alto valor energético e tentar transferir isso para a economia do Brasil. Existe toda uma economia que pode ser altamente sustentável, que pode preservar muito melhor o ambiente do que nós estamos fazendo até hoje e que pode servir de retorno em empregos e conhecimento que ampliariam ainda mais a matriz renovável energética brasileira.
Então, são coisas que estão na nossa cara e que eu acho que só uma política voltada para o Brasil, uma política que dê continuidade ao que o presidente Lula iniciou nestes oito anos, vai ter condições de manter dentro do Brasil. Porque existem evidentemente interesses enormes nessas riquezas nacionais, existe um interesse enorme nos cérebros brasileiros que estão desenvolvendo essas ideias e nós temos que manter isso de uma maneira agregada ao Brasil e não simplesmente dar isso de mão beijada para o primeiro que bater na porta com uma oferta ridícula de privatização ou da venda de nosso patrimônio intelectual para fora do Brasil.

***
Nós estamos no caminho certo. É só não fazer merda agora, eleitor/a.
Leia a entrevista na íntegra aqui.

Sobre Nicolelis:

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Manifesto contra a prisão da liderança indígena Glicéria

A Articulação dos Povos indígenas do Brasil (APIB) manifesta profunda
indignação contra a prisão arbitrária da liderança indígena Glicéria,
do Povo Tupinambá, e seu bebê de apenas dois meses, na tarde desta
quinta-feira, dia 3. Ela foi presa de forma constrangedora e violenta
por agentes da Polícia Federal ao desembarcar no aeroporto de Ilhéus
na Bahia.
Glicéria Tupinambá é membro da Comissão Nacional de Política
Indigenista (CNPI) e havia participado no dia anterior da 13ª reunião
ordinária da comissão, conduzida pelo presidente Luiz Inácio Lula da
Silva. Durante o encontro, ela denunciou os crescentes atos de
violência e violações de direitos humanos cometidos contra o Povo
Tupinambá pela Polícia Federal, proprietários de terras e autoridades
judiciais da região sul da Bahia.
Após ser interrogada na sede Polícia Federal em Ilhéus, Glicéria foi
transferida, acompanhada de seu bebê, para um presídio na cidade de
Jequié, distante cerca de 200 km de sua aldeia. Ela é a terceira
pessoa de sua família a ser presa por agentes da PF. Seus irmãos,
Rosivaldo Ferreira da Silva (conhecido como cacique Babau) e Givaldo
Ferreira da Silva, figuras atuantes na luta pela terra, também foram
presos em circunstâncias, no mínimo, duvidosas e aguardam julgamento.
A APIB repudia este ato deliberado de agressão cometido contra os
Tupinambá. E não admite que a criminalização de lideranças continue a
ser usada como arma na luta contra o processo de demarcação de terras
indígenas, seja na Bahia ou em qualquer outro estado.
Durante a reunião da CNPI, Lula afirmou que busca o diálogo com os
Povos Indígenas. A APIB também acredita no entendimento, mas tal
diálogo se torna inviável quando setores do governo tomam atitudes que
se mostram contrárias às determinações de seu próprio presidente sem
que nada seja feito.
Não é possível que o Estado Brasileiro continue impassível diante da
perseguição covarde por parte da Policia Federal à comunidade
Tupinambá da Serra do Padeiro, algo recorrente desde 2008. Tais abusos
são alvo de denúncia das organizações indígenas e entidades
indigenistas desde que a Fundação Nacional do Índio (Funai) iniciou o
processo de demarcação de terras na região.
A APIB reafirma o apoio das organizações indígenas de todo país ao
Povo Tupinambá e exige que o Presidente Lula e o Ministério Público
Federal tomem providências imediatas para garantir a libertação e a
integridade física de Glicéria Tupinambá, de seu bebê e das demais
lideranças indígena presas no estado da Bahia. Reivindica também
punição severa para os culpados pelas injustiças praticadas contra
estas pessoas e suas famílias.

Brasília, 04 de junho de 2010.

Articulação dos Povos Indígenas do Brasil - APIB
http://blogapib.blogspot.com/2010/06/manifesto-contra-prisao-de-gliceria.html

Autênticos em 1500, hoje ou em 2154?

João Pacheco de Oliveira
Antropólogo, professor titular do Museu Nacional/UFRJ

É comum jornais, filmes e comerciais de TV suporem que os índios são (ou deveriam ser) iguais àqueles descritos pelos primeiros cronistas, inteiramente exteriores ao universo ocidental. Nessa representação, o tempo transcorreu de modo absolutamente diverso para “brancos” e “índios”. Uns, os não indígenas, estão situados na História e se caracterizam pela variabilidade, mudança e complexidade. Os outros, os indígenas, são como estátuas de pedra, que apenas podem apresentar-se como idênticas ao que antes (supostamente) eram.
Recusar ao índio a História e o exercício da própria voz, imaginando-o apenas antes da chegada dos brancos, é um expediente útil para silenciar sobre o violento processo de colonização, propiciando uma autoanistia aos colonizadores. É essa categoria redonda, inteiramente infensa à História, plena de seduções e lisa de culpas, que o senso comum repete e consagra incessantemente. Em estudos anteriores, eu apontei um artifício narrativo que chamei de “o efeito túnel do tempo”. O artifício garantia a qualquer não índio, como em um passe de mágica, uma flagrante superioridade em relação a qualquer indígena. É também com base nisso que a tutela, apesar de autoritária e etnocêntrica, veio a ser simploriamente legitimada como instituto necessário e até filantrópico. Tal ideia está muito viva nas mais variadas manifestações discursivas dos brasileiros: artes, literatura, chiste e linguagem cotidiana. Os índios seriam algo apenas relativo ao passado colonial do Brasil, havendo uma enorme e generalizada dificuldade em compreender os índios atuais.
O reconhecimento se limita a faixas da Amazônia, onde ainda haveria grupos isolados e arredios (“índios verdadeiros”). Os demais são ditos apenas “remanescentes”, índios “misturados” e, no limite, “falsos índios”. Pretende-se instituir uma polaridade entre as culturas indígenas “intocadas” (seriam as autênticas) e aquelas afetadas por “processos de aculturação” (seriam inautênticas) . Partindo daí, setores da administração pública colocam em segundo plano as demandas de “índios” no Nordeste, seja omitindo se face ao reconhecimento de suas terras, seja criminalizando suas lideranças e enquadrando- as em
um regime carcerário próprio de praticantes de crimes hediondos (vide www.abant.org. br).
Os direitos indígenas, tais como definidos na Constituição de 1988 e na Convenção 169 (acolhida no Brasil em 2003), não decorrem, porém, de uma condição de pureza cultural a ser comprovada nos índios e coletividades indígenas atuais, mas sim do reconhecimento pelo estado de sua condição de descendentes da população autóctone. Trata-se de um mecanismo Compensatório pela expropriação territorial, pelo extermínio de incontáveis etnias e pela perda de uma significativa parcela de seu patrimônio cultural.
Não é justificado estabelecer parâmetros arbitrários para definir o que é (ou o que deva ser) uma cultura indígena. A incorporação de rituais, crenças e práticas exógenas não necessariamente significa que aquela cultura já não seria “autenticamente indígena” ou pertencesse a “índios aculturados”. Para constituir analiticamente uma cultura, é preciso partir do que pensam, fazem e sentem os seus portadores atuais. É preciso libertar-se do efeito “túnel do tempo”, da abordagem objetificante e da relação tutelar.
Os debates sobre Belo Monte nos evidenciam essa complexidade. Ali se expressam as velhas concepções sobre os indígenas, que alimentam tanto argumentos desenvolvimentistas quanto ambiguidades do discurso tutelar. Manifestase também uma tensão no interior do novo paradigma, uma vez que os indígenas buscam exercer o seu protagonismo, mesmo
assumindo posições temporariamente antagônicas — como no caso da aldeia Paquiçamba. Aprender a respeitar e a lidar com a contemporaneidade do indígena será um aprendizado importante para as autoridades.
Os embates ideológicos fizeram curiosamente reviver o potencial da figura do índio, apropriando- se agora da poderosa máquina de fabricação de mitos que é o cinema e remetendo-os ao futuro. A retórica dos ecologistas estabeleceu um paralelo entre os Na’vi e os indígenas atuais da região, visando a apontar os riscos para o ecossistema amazônico e mesmo planetário. A disputa pela autenticidade remete agora a 2154!

----------------------

POLÍCIA FEDERAL PRENDE MÃE E BEBÊ TUPINAMBÁ

A Polícia Federal prendeu na tarde de hoje, feriado de Corpus Christi, a índia Glicéria Tupinambá e seu filho de apenas (02) dois meses. Glicéria é liderança de seu povo e membro da Comissão Nacional de Política Indigenista – CNPI. Vinculada ao Ministério da Justiça, a CNPI tem entre seus integrantes representantes de 12 ministérios, 20 lideranças indígenas e dois representantes de entidades indigenistas. Na tarde de ontem, 2 de junho, Glicéria participou da reunião da CNPI com o Presidente Lula, oportunidade em que denunciou as perseguições de que as lideranças Tupinambá têm sido vítimas por parte da Polícia Federal no Sul da Bahia.
No dia seguinte, quando tentava retornar para sua aldeia, Glicéria – tendo ao colo o seu bebê de dois meses – foi detida ao descer do avião, ainda na pista de pouso do aeroporto de Ilhéus (BA), e diante dos demais passageiros, por três agentes da Polícia Federal, numa intenção clara de constrangê-la. O episódio foi testemunhado por Luis Titiah, liderança Pataxó Hã-hã-hãe, também membro da CNPI, que a acompanhava.

Após ser interrogada durante toda a tarde na sede Polícia Federal em Ilhéus, sempre com o bebê ao colo, Glicéria recebeu voz de prisão da delega Denise ao deixar as dependências do órgão. Segundo informações ainda não confirmadas, a prisão foi decretada pelo juiz Antonio Hygino, da Comarca de Buerarema (BA), sob a alegação de Glicéria ter participado no seqüestro de um veículo da META (empresa que presta serviço de energia na região). Esse juiz em entrevista concedida ao repórter Fábio Roberto para um jornal da região, se referiu aos Tupinambá como “pessoas que se dizem índios”. Mãe e filho serão transferidos para um presídio na cidade de Jequié, distante cerca de 200km de sua aldeia.
Desde que a FUNAI iniciou o processo de demarcação da Terra indígena Tupinambá as fazendas invasoras da terra indígena passaram a contratar pistoleiros, fazendeiros dos municípios de Ilhéus e Buerarema iniciaram campanhas difamatórias nas rádios e jornais locais, incitando a população regional contra os índios, o que resultou numa série de conflitos envolvendo pistoleiros, fazendeiros e indígenas. Como conseqüência da disputa pela posse da terra os Tupinambá respondem a uma série de inquéritos e processos criminais patrocinados pela Polícia Federal, numa estratégia clara de criminalização de sua luta legítima em defesa de seu território tradicional. Em decorrência dessa ofensiva de criminalização já estão presos os indígenas Rosivaldo (conhecido como cacique Babau) e Givaldo, irmãos de Glicéria que passa a ser terceira presa política Tupinambá.

A animosidade nutrida pela Polícia Federal em relação aos Tupinambá já se tornou crônica.  No dia 23 de outubro de 2008, numa ação extremamente agressiva, a PF atacou a comunidade indígena da Serra do Padeiro, deixando 14 Tupinambá feridos à bala de borracha, destruiu casas e veículos da comunidade, a escola indígena e seus equipamentos, e ainda deteriorou a merenda escolar. Dois Tupinambá foram presos na ocasião. Em junho de 2009, após outra ação de agentes da PF juntamente com fazendeiros - numa ação de reintegração de posse -, sinais de tortura em cinco Tupinambá ficaram comprovados por exames de corpo de delito realizados no Instituto Médico Legal do Distrito Federal. O inquérito, levado a cabo pelo mesmo delegado que coordenou a ação dos agentes, concluiu entretanto pela inocorrência de tortura. Nenhum dos agentes foi afastado durante ou após as investigações. No dia 10 de março de 2010, numa ação irregular, a Polícia Federal invadiu a residência do cacique Babau em horário noturno (duas horas da madrugada), destruindo móveis e utilizando extrema força física para imobilizar o Cacique, que acreditava estar diante de pistoleiros, pois os agentes estavam camuflados, com os rostos pintados de preto, não se identificaram e não apresentaram mandado de prisão, além de proferir ameaças e xingamentos.
O Conselho Indigenista Missionário, preocupado com a integridade física e psicológica de Glicéria e seu filho, vem a público manifestar mais uma vez o seu repúdio ao tratamento dispensado por órgãos policiais e judiciais ao Povo Tupinambá. Reafirma seu compromisso em continuar apoiando a luta justa do povo pela demarcação de seu território tradicional e conclama a sociedade nacional e internacional a se manifestar em defesa da causa Tupinambá e pela imediata libertação de seus líderes.

Brasília, 3 de junho de 2010.

Conselho Indigenista Missionário – Cimi

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Em Nome do Vestido Rosa


Cinara Nahra                                         

Professora  de ética do Departamento de Filosofia da UFRN

Foi com profunda tristeza e preocupação que li a notícia de que a garota que foi brutamente moralmente insultada em um estabelecimento de ensino superior no interior de São Paulo, no mês de outubro do ano de 2009 do século XXI, tinha sido (pasmem!) expulsa do referido estabelecimento sob a alegação,entre outras, de que ela tinha (sic) " desrespeitado princípios éticos, a dignidade acadêmica e a moralidade".

Como professora de ética devo dizer que está havendo aqui uma brutal inversão de valores, que aliás,  é estratégia típica dos representantes do obscurantismo. Na realidade quem está  desrespeitando os princípios éticos e a dignidade acadêmica são aqueles que não só não pedem desculpas à moça pela humilhação a que ela foi submetida, como ainda, adicionando injúria à infâmia,  culpabilizam ainda mais a vítima.
Esta tática da inversão sempre foi usada em relação a nós mulheres. Vítimas de estupro foram muitas vezes  sórdidamente culpabilizadas pelos abutres-machistas de plantão, sempre prontos a dizer que "elas provocaram". Recentemente  em abril deste ano, o ex-arcebispo de Olinda excomungou vários membros (todas mulheres) e uma garota de 11  anos que teve de abortar pois corria risco de vida em uma gravidez provocada pelo seu padastro, que a estuprou. O arcebispo considerou o aborto um crime mais grave que o estupro e o abuso sexual, e a menina só foi salva graças a ação dos médicos, que deram ouvidos à razão e à ciência e não à ignorância.
Por que a garota do vestido-rosa-curto teria desrespeitado a ética?  John Stuart Mill, filósofo inglês do século XIX estabeleceu um princípio ético, conhecido na filosofia como  o princípio da liberdade que afirma o seguinte: "a auto-proteção constitui a única finalidade pela qual se garante à humanidade, individual ou coletivamente, interferir na liberdade de ação de qualquer um. O único propósito de se exercer legitimamente o poder  sobre qualquer membro e uma comunidade civilizada, contra sua vontade, é evitar dano aos demais". Perguntemos, então: que dano poderia um vestido rosa-curto causar a qualquer pessoa? "Por acaso alguma das pessoas que estavam lá naquele momento poderia ser vítima de um ataque cardíaco ou poderia transformar-se em uma estátua de sal diante de tal 'dantesca" visão? Todos nós sabemos que não. Os mais sensíveis, aqueles que por qualquer motivo se sentem ofendidos ao olhar para pernas femininas descobertas, estes poderiam ter, simplesmente, virado o rosto  para o outro lado. Mas porque não o fizeram? Por que aqueles que estão acostumados a não olhar para a  miséria existente em nosso país, para as desigualdades de classe, para a violência e a criminalidade que está dilapidando nossa sociedade e tirando a vida de milhares de pessoas, resolveram "olhar" para o vestido rosa-curto e insultar sua dona?  A resposta talvez esteja ,exatamente, na falta de uma educação ético-moral baseada nos princípios clássicos da tolerância, do respeito as diferenças, da não agressão e da regra de ouro (não faça aos outros aquilo que não queres que te façam!).
O ataque dos colegas à moça do vestido-rosa-curto, este sim,  foi um ato de brutal intolerância, fruto do preconceito e do moralismo. O moralismo, eu tenho já dito isto nos meus artigos, é uma deturpação da moral. O moralismo não resiste ao critério da universalidade e do dano. Se a partir de agora todas as mulheres do mundo resolvessem usar vestidos curtos, nenhuma consequencia nefasta se produziria. Algo completamente diferente se daria, por exemplo, se universalizássemos comportamentos como a corrupção, a mentira, o roubo, a exploração. Se todas as pessoas no mundo resolvessem ser corruptas, mentir, roubar, explorar,  as conseqüências para a sociedade seriam extremamente negativas. Se assim é, porque muitas  pessoas estão dispostas a serem coniventes com os comportamentos do segundo tipo, os comportamentos imorais como a corrupção, o roubo, a criminalidade e a condenar um comportamento tão inocente quanto usar um vestido curto? A coisa se torna ainda mais deplorável quando vemos que aqueles que têm sob si a responsabilidade de dirigir uma instituição de ensino, mostram também eles um comportamento "moralista", e portanto imoral, ao penalizarem duramente quem não fez nada de errado e a serem "brandos" na penalidade a todos aqueles que , estes sim, hostilizaram brutalmente um outro ser humano pelo simples fato de ela usar uma roupa, ou comportar-se de um modo  que  não lhes agradava. Ao aceitar o bullying (molestamento) dos agressores e condenar a  vítima, a instituição deu a todos os jovens do país uma preocupante e assustadora lição de preconceito, moralismo e obscurantismo.
Por último, gostaria de lembrar um episódio da nossa história recente. Na época da ditadura militar, Leila Diniz foi duramente atacada pelos moralistas por usar biquíni na praia, estando grávida. Em 1969 ela deu uma entrevista ao jornal o Pasquim aonde ela  disse entre outras coisas que " felizmente já amei muito  e espero amar mais ainda". Após esta publicação foi instaurada a censura aos jornais em nosso país, naquele que ficou conhecido como o decreto Leila Diniz. Todos nós sabemos o que aconteceu depois: a brutal repressão que se instaurou no país nos anos 70. Felizmente hoje vivemos em uma democracia plena, e são mínimos os riscos de uma volta a um período ditatorial. Entretanto, os horrores da ditadura, dos anos da repressão, da censura, estão ainda muito próximos de nós para serem esquecidos. O moralismo, o preconceito e a intolerância comportamental andam de mãos dadas com  todos os totalitarismos do mundo e é preciso que estejamos muito atentos na defesa dos direitos políticos , reprodutivos e sexuais que foram conquistados, com muita luta, pelas mulheres.
Que o vestido rosa-curto sirva para que a gente reflita sobre os valores da nossa sociedade. Há algo de profundamente perturbador  quando um grupo  insulta um ser humano por causa do tamanho da roupa que este ser humano usa. Este é um sinal de que há algo de podre no reino do Brasil e tudo é ainda mais preocupante quando se sabe que ha outros casos, alguns até mais graves. Uma trabalhadora já foi agredida por ser confundida  com uma prostituta, como se fosse permissível agredir prostitutas! Mendigos já foram queimados por jovens de classe média, como se mendigos não fossem gente! Crimes brutais são cometidos todos os dias, todas as horas e tudo fica por isso mesmo, como se a criminalidade fosse normal e a vida humana não tivesse nenhum valor. Definitivamente há algo de profundamente imoral na sociedade brasileira, mas com absoluta certeza esta imoralidade não tem absolutamente nada a ver com vestidos ou saias curtas.